8 de março: um dia é pouco. | Ana Cláudia Bessa

8 de março: um dia é pouco.

Posted on 08 março 2010

mulherlutaDia Internacional da mulher e ainda vejo pouco a se comemorar.
Claro que a condição feminina avançou bastante mas avançou pouco.
Sim, pouco.
O mundo continua machista e a mulher continua ganhando menos no mercado de trabalho.
Ainda encontramos pais e as próprias mães que acham lindo seus filhos terem um monte de namoradas e filhas que não tenham tantos namorados assim.
Ainda encontramos maridos que traem mas que querem suas mulheres em casa, cuidando dos filhos.
Ainda encontramos mulheres que abortam por conta própria, sem apoio da família, do parceiro ou do governo.
Ainda temos mulheres sendo chamadas de “piranhas” pelas roupas que vestem.
Ainda temos mulheres culpadas pelo assédio que recebem.
Ainda temos mulheres violentadas porque não se comportam de acordo com o que a sociedade julga correto.
Ainda temos mulheres desrespeitadas porque não têm um homem ao lado.

Somente descobri todos esses valores depois que fui mãe, porque depois da maternidade me senti mais mulher.
Mas isso não implica que para todas tem que ser assim.

As mulheres têm o direito a escolher, ou deveriam ter.

Depois de ser solteira, profissional, casada, separada e mãe posso dizer como é difícil sermos respeitadas.

Já perdi uma excelente vaga de trabalho para um homem menos competente.Foi terrível perder aquele trabalho não porque ele era homem, mas só porque ele era homem.
Porque esse foi o diferencial e com o qual eu não teria como competir. Afinal, não sou homem.

E duas vezes, saí do trabalho porque não “dei” pro chefe. São momentos tristes na vida profissional de qualquer mulher e a gente se sente um lixo.
Não fui assediada porque sou de beleza estonteante, nada disso.
O problema não era comigo, era com o “chefe”.
Não era o meu trabalho, não era a minha capacidade, não era a minha beleza ou falta dela.
Ele queria usar a mulher que trabalhava para ele. E ponto.
Poderia ser eu, poderia ser outra.
Paguei o preço por me respeitar.

Enquanto casada, somos respeitadas, mas escolha não ter filhos para ver!
Passei por isso no meu primeiro casamento.
E foi a melhor coisa que fiz porque não há nada melhor do que ter filhos quando nos sentimos prontas para isso.
Mas a sociedade foi bastante cruel com a minha escolha.

Depois se separe, e minha amiga, verá o desrespeito de todas as formas porque você é sozinha e não tem um homem ao lado para te “proteger”.
E na verdade , eu nem entendia direito isso tudo porque eu estava tão feliz e tão bem sozinha durante um tempo que a gente se pergunta o motivo da sociedade no obrigar a ter um homem, mesmo quando não queremos.

Depois me casei novamente e tudo voltou ao “normal”.
Tudo mais fácil.
Mas é triste ver que muitas sucumbem a relacionamentos que não querem e homens que não as merecem pelo conforto de ser casada e bem aceita na sociedade.

Aí tive filhos e foi o auge do respeito social.
Casada, marido , filhos…

Ah…mas essa “adequação” social tem um preço alto porque você não pode escolher ficar em casa cuidando dos filhos mesmo que provisóriamente, ou será rotulada de Amélia.
E há as que ainda se adequam a mais este papel, o de mãe-profissional-bem-sucedida-que-trabalha-fora.
Sinceramente, não sei como conseguem.
Eu optei por ficar em casa e hoje, mesmo tendo retomado meu trabalho, fazendo-o de casa, fico enlouquecida.
Se querem nos parabenizar pelo dia das mulheres, que seja nos respeitando.
Respeitando nossas escolhas.
Nossas roupas, nosso corpo.

Só me faça cesárea seu eu quiser ou se isso for realmente necessário.
Botem os companheiros violentos na cadeia e não deixem mulheres e filhos apanhando de homens que nunca são punidos.
Respeitem-nos quando dizemos: não quero filhos.
Respeitem-nos quando não quisermos maridos.

Porque nós mulheres assumimos nossos papéis e sustentamos famílias tantos quanto os homens.
Os mesmos que querem chegar em casa e descansar, enquanto a mulher, depois de um dia todo de trabalho, dentro ou fora de casa, ainda tem os filhos a cuidar até o momento em que eles vão para a cama.

Porque ainda existem maridos que dizem que não trocam fraldas!
Como se os filhos fossem feitos somente pelas mulheres.
Como se o ato de cuidar e mantê-los fosse somente obrigação das mães.
E se elas trabalharam fora, nada muda. Nada como alguém para ajudar nas contas e cuidar dos filhos.
Não tenho palavras para definir estes homens.
São os mesmos que dizem que deveria ter dia internacional dos homens.
Porque são eles que são estuprados, prostituídos, explorados, desmerecidos profissionalmente.
Eles é que foram queimados em fogueiras porque foram taxados de bruxos, feiticeiros, malévolos.
Coube à nós a vil função de trazer o pecado ao mundo e tirar o inocente Adão do paraíso.

No dia internacional da mulher,nada a comemorar. Continuamos reinvindicando respeito e igualdade como as operárias de 8 de março de 1857.
Por isso, amigas, a mudança depende de nós.
Ou continuaremos a ser as loucas, neuróticas e chatas dos comerciais de TV.

Vamos educar nossos filhos a respeitarem as mulheres como queremos ser respeitadas por nossos companheiros.
Vamos educar nossas filhas para se darem ao respeito para que suas escolhas tenham valor.
Vamos educar nossos filhos para que respeitem suas colegas de trabalho.
Vamos educar nossos filhos para que eles aceitem mulheres em cargos representativos com respeito e admiração, tanto quanto aceitam outros homens.
Vamos educar nossos filhos para que respeitem suas mães como mulheres.
Vamos educar nossos filhos para serem bons pais e participativos em suas famílias.
Vamos educar nossas filhas para respeitarem as outras mulheres porque também somos nossas próprias algozes.

Vamos educar nossos filhos e filhas , para que tenhamos o que comemorar nos próximos 8 de março de dois mil e sempre.

( Um beijo especial ao meu marido que é um companheiro maravilhoso, imperfeito – tanto quanto eu – mas comprometido com as escolhas que fizemos juntos. Te amo.)

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