Favela e marginalidade são sinônimos desde que os desgraçados soldados sobreviventes de Canudos se estabeleceram ali pelos lados dos morros da zona portuária (Favela era o nome de um dos povoados do arraial de Canudos) e que os negros alforriados ocuparam as encostas do Meier no fim do século 19. Favela é distorção social, é degradação humana.
Enquanto era só (!!) isso, o fenômeno favelização foi tolerado, em grande parte incentivado (dali vinha a mão-de-obra útil e barata das classe média e alta ) e, mais que isso, glamurizado. A música, o cinema, o teatro, a literatura, trataram de pintar um quadro pitoresco, bucólico, alegre, dessa distorção.
Dos morros a favelização se espalhou para todo e qualquer espaço urbano mal utilizado ou desguarnecido. Margens de rios e canais; terrenos públicos com ocupação indefinida; áreas particulares em situação de conflito por espólio, herança etc e por aí a fora.
Percebidas como verdadeiros “currais” eleitorais por políticos inescrupulosos (existem escrupulosos?) as favelas passaram a representar um verdadeiro patrimônio eleitoral. O gueto tornou-se feudo. Afinal de contas aqueles infelizes estavam ocupando espaços urbanos desprezados pelos “verdadeiros cidadãos”. Aqueles morros desagradáveis, aquelas nesgas de terra sem atrativo nem valor comercial…
Um centro de “assistência social” aqui, uma pracinha ali, uma quadra de esportes acolá e bingo… a garantia de mandatos e mais mandatos!
Acontece que marginalidade é marginalidade, para o bem e para o mal. O mesmo gueto que favorece interesses políticos canalhas também favorece interesses criminosos. A informalidade, a clandestinidade, a geografia urbana caótica (mas bem conhecida pelos “nativos”) dessas comunidades, a distância do poder público e da ordem constituída favoreceram a proliferação do CRIME, que ali encontrava o acobertamento ideal. A principal hipocrisia e contradição da sociedade moderna – as DROGAS – encontraram ali o ambiente ideal para transitar. Prosaicas “bocas-de-fumo” cresceram em escala, diversidade e importância e abriram caminho para o que hoje chamamos genericamente de TRÁFICO!
Bem, deixemos de “sociologia barata”, até porque a evolução dessa história é plenamente conhecida por todos nós, e vamos ao que interessa. A “favelização” tornou-se a nossa maior e mais grave doença social, comparável (impressionantemente) ao câncer! Querer dissociar a escalada da violência urbana do processo de favelização de nossa cidade é cegueira, má fé, ingenuidade ou burrice!
A favelização está matando o Rio como o câncer mata um organismo biológico! Fora de controle o processo se espraia não mais apenas para os morros ou as “nesgas” do tecido urbano, mas para cima da própria cidade “legal”. Querem exemplos? Todos (eu disse todos) os imóveis, residenciais, comerciais e industriais – e não eram poucos – da Rua Visconde de Niterói, no entorno da Mangueira, foram ABANDONADOS por não ser mais possível conviver com a violência. Isso inclui um PRÉDIO de uma estatal (o IBGE) e duas indústrias de porte (Red Indian e Kibon). O mesmo processo pode ser visto em fase avançada na Av. Leopoldo Bulhões, uma importante via ligando Bonsucesso a Benfica, onde sequer viaturas policiais circulam à noite sem estarem em “comboio”.
A Av. Brasil, a principal via da cidade caminha aceleradamente para o mesmo destino. Querem mais? As antigas Automóvel Clube, Estrada Velha da Pavuna, Suburbana); Avs. Itaóca e Itararé. Isso para falar somente da região suburbana, que a maioria dos formadores de opinião nem considera parte da “Cidade Maravilhosa”. São galpões, casas, prédios residenciais inteiros, que são a-ban-do-na-dos por seus ocupantes pela impossibilidade de permanecerem vivos nas proximidades dos mais perigosos guetos.
A glamurosa, rica e internacionalmente famosa zona sul da cidade começa (não tenham dúvida, é “apenas o começo”!)a sentir os sintomas!
Continua na próxima postagem
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IVO FONTAN
















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