Criança não precisa só de comida

Sempre que a gente fala em filhos, tem alguém que lembra da quantidade de bocas a se alimentar. Muitos, muitos mesmo, se esquecem de que este não é único alimento de que uma pessoa precisa. Pelo contrário. Quando pensamos em ter filhos, precisamos pensar que ele precisará de muitas coisas mais além de comer. Pensar no futuro como algo distante e intangível ou limitar o futuro de uma criança na profissão rentável que queremos que ela exerça, é muito restritivo às próprias capacidades dessa criança.

Mas eu não falo como educadora. Falo como mãe.

Prover cultura hoje a uma criança é fundamental porque criança é criatividade e cultura também. Ela deve ter contato com a cultura o quanto antes. Além disso, com o mundo digital cada dia mais amplo e presente em nossas vidas, a quantidade e acesso à informação e cultura faz com que precisemos ter esse valor agregado em nossa formação desde cedo. E isso significa dar mais do que TV, mesmo que você só dê TV paga para seus filhos. Poder oferecer uma programação mais seleta do que a fraca TV aberta brasileira tem a oferecer, é uma vantagem. Mas ainda assim, a TV é baseada no marketing de consumo. Para a TV ser viável, ela precisa de publicidade e a publicidade,na maioria das vezes, simplesmente ignora as reais necessidades da faixa etária infantil e sobrecarrega as crianças,  estimulando uma das principais causas de criminalidade entre os jovens: a necessidade e o desejo de consumir.

E como podemos incentivar as crianças a desenvolver o gosto pela cultura e qual a idade para se começar? Para mim a resposta é simples: a hora é agora.

Como pais, podemos aproveitar a presença da criança em nossa vida para mostrar à ela o mundo que nós mesmos esquecemos que existe além da nossa necessidade de prover o básico à nossa existência. Nós, adultos, nos perdemos na necessidade de trabalhar e prover. E acabamos por não dedicar tempo a prover outras coisas importantes que nossos filhos precisam. Aprender sobre informática e tecnologia é importante mas ela terá tempo para aprender tudo isso. Precisamos levantar do sofá, desligar a TV, abrir o jornal ou a internet e ver o que está acontecendo de bacana me nossa cidade ou nas cidades vizinhas. Precisamos cultivar desde cedo o hábito de visitar museus, exposições, assistir apresentações musicais, freqüentar livrarias.

Há tanta coisa que podemos começar a fazer hoje!

Podemos substituir os brinquedos que sempre damos em todas as datas, por livros, por exemplo. Podemos passar a dar livros de presente nas festas de aniversário que comparecemos. Podemos fazer uma lista de livros para receber de presente. Podemos levar nossos filhos aos museus ao invés de ir aos shoppings, podemos matriculá-los em cursos de música ao invés de só praticarem lutas. Podemos ir ao teatro, ao invés de só ir ao cinema. Podemos substituir as frenéticas animações de festas infantis por contação de histórias, teatro de fantoches, etc.. Podemos dar brinquedos educativos ao invés de bonecos e armas de plástico que somente estimulam e banalizam a violência.

Em geral, priorizamos aquilo que todo mundo prioriza: esporte, consumo, escolas caras, brinquedos caros, TV, vídeo-game e computador. Precisamos pensar além do nosso restrito horizonte. A escola mais cara, nem sempre é a melhor ou a mais adequada. O brinquedo mais caro, nem sempre é o que a criança deseja. E precisa.

Toda essa forma de ver o mundo, faz com que nós adultos percamos o que temos de mais valioso e já nasce conosco: a curiosidade. E somente a cultura real pode nos manter essa chama acesa. É a base e os bons hábitos que cultivamos na essência de uma criança que vai dar a ela as ferramentas para que ela seja o que ela quiser de sua vida e para que desempenhe com primor tudo aquilo que ela quiser desempenhar, pois com cultura e criatividade, podemos tudo e muito mais. É com a base de uma experiência rica em vivências que elas se tornarão aptas a usar com plenitude e eficiência as ferramentas que o futuro oferece.

Assim, daremos mais que comida. Ofereceremos a base, que além de ter a cultura como um item de valor inestimável na formação de uma criança, ainda estaremos dando à elas a nossa presença. E isso, é algo valiosíssimo que a vida moderna vem tirando compulsivamente da vida das famílias: convivência. Cultura é plural. Por isso precisamos dela, para ajudar a ensinar nossas crianças a mudar esse mundo individualista em que nos encontramos.

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Texto originalmente publicado no http://www.nosdacomunicacao.com/panorama_interna.asp?panorama=198&tipo=G
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Mãenifesto

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6 Responses

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  1. Ana, num país como o nosso carente de tantas coisas, a maioria acha que só o alimento para o corpo é essencial!! Essas pessoas, infelizmente, não tem ideia dos outros tipos de alimento….o da alma, o do conhecimento, o alimenta que nutre nossas mentes e nossos corações! Uma pena…
    A cultura, a leitura, a religião são “vitais” para um ser humano se tornar completo…
    Eu a muito tempo gosto de presentear meus filhos e seus amiguinhos com livros, mas confesso que nem todo mundo entendi isso… substima esse precioso presente!

    Se vc tiver um tempinho, dá uma chegadinha la no blog. Eu postei uma matéria sobre educação econômica. Uma proposta bacana que está sendo adotada na escola dos meus filhos.
    Abs
    Carla

  2. Concordo com a Carla,quando dou livros de presente,a pessoa ao lado,torce o nariz…..ler é fundamental….como Educadora trabalhei muito em sala de aula com Literatura Infantil,assim como,grandes Autores,Pintores,Músicos,etc…….o ser humano precisa muito de cultura do que comida,alimentar o espírito,a alma,é salutar ……desde pequenos precisamos prover as crianças de cultura…..uma ida a Museus,Teatros,Concertos,etc……..grande postagem…..Boa semana !!!!!

  3. Comigo aconteceu o contrário. As mães vieram agradecer o presente que eu tinha dado, no caso livros. E vi que não era lorota pq elas comentavam estar fazendo essa ou aquela atividade q era proposta no livro. Achei super legal saber q o meu presente estava incentivando, pelo menos um pouquinho, essa interação!

    Abçs,
    Eliane

  4. [...] This post was mentioned on Twitter by 1001roteirinhos, Futuro do Presente. Futuro do Presente said: Criança não precisa só de comida http://bit.ly/ccKI4f #blog #post [...]

  5. Excelente texto, Ana. É exatamente esse o meu pensamento. Penso e falo nisso desde que meu rapazinho estava na barriga. O problema todo reside não em iniciá-lo nisso – uma facilidade, já que ele é naturalmente curioso – e sim mudar os hábitos do(s) pai(s).
    Eu prefiro mil vezes uma livraria ou um museu a um shopping, até porque não tenho mais, há tempos, aquele impulso consumista que em geral é comum às mulheres.
    Mas o pai adora um shopping, e o filho mais velho idem. Vícios de consumo e fast food.
    Todo final de semana luto por incluir um programa diferente. Quando não consigo, acabo levando o pequeno para a área de brincar do shopping. Pelo menos é mais saudável e divertido para ele, que descobre brinquedos novos – e eu ainda posso acompanhar essas descobertas e aprender sobre o que ele gosta.
    Se é para gastar dinheiro, prefiro gastar pagando um “local de brincadeiras” para ele. Na nossa última experiência, fiquei felicíssima em descobrir que no shopping em que mais vamos tem um baú cheio de fantoches, que é uma coisa que o pequeno adora. Mais da metade da meia hora em que passamos lá ele ignorou totalmente todos os outros brinquedos, e ficou cantando e contando histórias com os fantoches de bichos. Uma delícia!
    Sempre lembro ao meu marido: escola é para formar, não para educar. E educação é muito mais que ensinar a dizer “por favor” e “obrigado”.
    Se queremos um filho culto e inteligente, cabe a nós providenciar que ele se desenvolva em um ambiente que incentive o aprendizado, o interesse e a curiosidade, e esse ambiente precisa ser a nossa casa e a nossa vida, não somente a escola. Exemplo é tudo na educação.
    bjs!

  6. Excelente texto, Ana. Eu penso exatamente da mesma forma.
    Mas o difícil nesta tarefa de levar a cultura aos nossos filhos e incentivá-los em sua perene curiosidade não é ter a adesão deles – pois a curiosidade é natural nas nossas crianças – mas mudar o hábito do(s) pai(s).

    Meu marido e o filho dele amam um shopping. Pra eles, programa de final de semana é shopping. Pelo menos em geral isso inclui cinema, mas também inclui consumo e fast food. Dessa segunda parte, então, nenhum dos dois se esforça para escapar. Eu sempre faço um esforço para arranjar programas diferentes, propor atividades ao ar livre, interessá-los por outras coisas. Mas é muito difícil, uma luta constante.

    Quando inevitavelmente acabamos no shopping – até pela minha preguiça também, ou falta de vontade de dividir a família – geralmente levo o pequeno para o espaço de brincar. Se é pra gastar dinheiro, eu opto por fazê-lo propiciando a diversão e o aprendizado dele, pois como ele não tem nem 2 anos, brincar é sua forma de aprender. Como também vou junto, acaba sendo uma hora também para observá-lo, descobrir novidades no seu gosto ou incentivá-lo a alguma nova descoberta. Para minha alegria, descobri que no shopping que frequentamos mais existe um baú cheio de fantoches nesse tal “kids*qualquercoisa”. Em nossa meia hora lá, ele ficou mais da metade do tempo só brincando e cantando com os fantoches de bichos. Isso diminuiu um pouco minha “culpa”. Adoro vê-lo brincando com isso e ignorando os bonecos de desenhos animados e brinquedos barulhentos.

    Sempre digo para o meu marido que a formação é papel da escola, a educação é papel dos pais. E educar é muito mais que ensinar a dizer “por favor”, “obrigado”, “com licença”. É dar exemplos. É providenciar um ambiente propício para que eles aprendam, se desenvolvam e aprimorem suas habilidades, e isso também vai muito além da escolha da escola. Isso é sair com eles, é colocá-los em contato com a cultura, com a natureza, com a rua, com os outros. É cuidar para que suas referências sejam corretas, e isso inclui também passar as nossas referências, além de filtrar as deles.

    Filhos nos fazem crescer, aprender, evoluir. Somos obrigados a ter e absorver novas referências, que fazem parte da vida deles, mas não podemos abrir mão de contribuir com as nossas, que são essenciais para a sua educação. Exemplo é tudo na hora de educar.

    Ter filhos é muita coisa, e muita coisa boa, mas não é confortável. É um pedido de mudança e adaptação constante, é uma responsabilidade sem descanso, é um dever, é um compromisso, um compromisso de amor. Não dá pra sentar na poltrona e deixar eles se desenvolverem sozinhos, não existe zona de conforto. Pena que seja difícil para muitos pais entenderem isso.

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